A normalidade não é um estado, é um termo adequável, tem a ver com tudo que nos rodeia, do mais próximo ao mais distante, assim, posso ser normal em Fortaleza e anormal no Japão, normal pros meus amigos e anormal pra minha mãe, talvez até se eu dançar um sambinha no meio de uma rua isso me determine como louca no Japão e se fizer isso aqui vou ser apenas feliz. É a nem sempre evidente pressão social, tem gente que é faz e pensa e no fim não sabe por quê.
Afinal, será mesmo que aquela vontadezinha que você teve um dia não muito convencional vai te levar pra forca? Reprimir é muito fácil mesmo, esconder, abafar, mentir! A mentira é a melhor saída pra quem não quer ter trabalho, é muito mais fácil pro outro escutar o que quer do que segurar, aparar, sustentar uma verdade indesejada.
Quer saber, não é tão difícil abrir a cabeça, enxergar um pouco mais, o negócio é que as vidas são reduzidas a horários e lugares e pessoas, um círculo por onde rondam as mesmas, ou quase, sensações e olhares. Se não houver um passo a frente o que vou ver todos os dias é o mesmo caminho.
A verdade desafia, enquanto pra muitos o mais confortável é enxergar a sua fantasia, pra quem quer mesmo é falar a verdade cria-se um confronto direto, é assim nas relações familiares e amorosas, e por ai vai...
Por isso não sou religiosa, não me filio, não quero restringir minhas sensações, meus pensamentos, me achatar, me reduzir às palavras alheias, as cabeças alheias. Mas escuto conselhos, troco idéias, leio! Ler ajuda muito, os mais variados livros, não só os de auto-ajuda, não só os de filosofia, não só os românticos, ler tudo que puder, ler as pessoas observando-as, ler os pensamentos ouvindo-os, ler os lugares sentindo-os, ler as músicas... Tudo é de se ler, é de se aproveitar!
Tenho o direito de sentir o que meu vizinho não sente, e falar o que minha irmã não tem coragem, tenho direito de amar um negro sendo branca e de amar uma mulher sendo mulher, tenho direito de cantar no ônibus, de andar na chuva, tenho direito de calçar botas no verão. Até onde o seu olhar pode me condenar, e até onde estou ferindo o seu escudo? O que determina que eu tenha direito de não estar na moda, e o que determina que você tenha direito de me escarnecer por isso? Eu digo. Minha cabeça.
Minha cabeça estabelece o que me faz bem e o que não, mas é difícil entendê-la com tanto barulho ao redor, com tanta gente falando do que é certo e do que não é, então ela delega aos meus sentimentos o melhor a se fazer por mim, então eu sinto... Eu sinto um olhar reprovativo e isso me coíbe até eu resolver sentir o meu olhar pra dentro de mim, aceito as más críticas até eu entender o que eu desejo de verdade, e mesmo que não tenha chegado lá, na minha verdade, eu vou sentindo o meu caminho...
O que eu poço entender das situações é o que eu tenho na bagagem de referência, então vou fazer tudo conforme o meu olhar, mas se ele enxerga apenas uma direção vou ser injusta, tem muito o que se ver, o que se sentir, pelo menos o que se saber por ai, de vidas de coisas, que adicionariam a um olhar restritivo muito mais cores, e inevitáveis sensações, que são os sabores de viver.
Se nunca tivesse ido a escola certamente não saberia ler, pois se nunca tivesse escutado Oswaldo Montenegro não saberia que ao meu gosto é bom, se não lesse até o final os livros que de cara não gosto não teria razão em dizer por que eles são ruins. Bem, há muitas realidades para se enfrentar, e por razão de outras realidades algumas são difíceis de engolir; minha avó não aceitaria que minha mãe tivesse um piercing, minha mãe aceita um piercing, mas não o namorado dormindo em casa, a mãe da minha vizinha aceita o namorado dela dormindo na casa, mas não aceita um piercing, o pai dessa vizinha não aceita nem o piercing, nem o namorado.
São muitas realidades se confrontando, muitas verdades diferentes e nada de certo nem errado, são sentimentos em outros sentimentos.
Então, o que é normal não tem a ver com o olhar do outro, tem a ver com o seu, e uma baita coragem de enfrentar diferenças, maturidade pra entender diversidades, entender o tempo de cada um, os sentimentos de cada um, o que os rodeia e o que os falta, pra entender também que seu olhar e sua postura são o que você decidiu assumir, mas não o que exatamente se precisa, é a sua aposta, não a de todos.
Se não chegarmos mais perto, vai continuar esse abismo entre o que se sabe, e o que se pensa saber.
quarta-feira, 6 de maio de 2009
quinta-feira, 23 de abril de 2009
' O incerto é uma estrada reta '

Somos inconseqüentes e inconstantes, em muitos momentos não sabemos o que fazer, é uma bagunça ficarmos juntos, mas muito pior é quando estamos separados; é que nossa cabeça desestrutura e nossa inconseqüência aumenta consideravelmente, a bebedeira toma de conta e às vezes muita tristeza se abanca, e o nosso [meu] coração tão inquieto não agüenta.
Nunca vi nada parecido, e nem poderia, cada amor é um amor e o nosso é novo no mercado, veio sem manual, mas a gente resolveu arriscar, é difícil como deve ser para muitos e eu penso várias vezes em desistir, mas minha vontade nunca obedece quando se trata dele, aliás, não há nada que se obedeça, não há regras, e eu sei que não sabemos nada dos melhores caminhos, mas não paramos de ir...
Pensei que pra uma coisa dar certo era só seguir o script, mas deve ter uma coisinha a mais; sorte, tempo certo, ou menos cabeça dura, daí eu vou de mansinho e tapando os ouvidos que é um bom remédio, porque nem sempre a ajuda de fora é fácil, mais fácil mesmo é ela ser dura, sem dó.
Eu penso o que determina o amor, o que faz ele ser chamado de verdadeiro, e mais, o que faz ele permanecer, apesar de, através do tempo, arrastando lembranças e muitas vontades. É preciso ter uma sabedoria oriental pra sustentar um relacionamento, uma paciência de monge, porque essa coisa de paixão que leva a gente do céu ao inferno com tão pouco não é suficiente pra preservar uma história, pra conservar uma vida, o amor deve ser o que persiste depois disso, depois que se desafia toda razão e não há mais nada a perder, permanece ali algo que não te deixa ir embora, uma coisa como esperança, uma coisa como um intenso afeto, ainda cheio de vida...
Acho que apesar dele nunca me mandar rosas, nem cartõezinhos, e não puxar a cadeira nem abrir a porta do carro, porque todas essas coisas ainda valem, há uma inocência nos sorrisos que me envolve muito, há, quando sério, uma verdade nas palavras que irremediavelmente me derrete, e quando há surpresas, são realmente surpresas, e não há nada mais gostoso do que perceber que as pessoas ainda conseguem te surpreender.
Acho que o incerto é que nos conduz, e com isso ele me aperta nos braços, nos laços, acho que o incerto é nossa linha reta.
Uma coisa; querer ele não é fácil, estar com ele, nada menos...
segunda-feira, 6 de abril de 2009
Alberto Caeiro

Não Basta
Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.
terça-feira, 24 de março de 2009
Mas não é a procura do que sou que devo ir, nem buscando o que querer e onde me agarrar, não é rezando sem fé, nem vendendo simpatia pra pessoas que falam de coisas que eu penso saber ou sentir, não é me aliando às ideologias falhas que rondam por aí...
Tenho um querer constante de tudo quanto é e pode ser, esse querer me faz...
Quero tudo quanto me couber...
Não espero uma peça que me encaixe como se eu fosse na verdade molde perfeito...
Não é de procurar que devo viver porque tudo na verdade é um encontro, uma busca é também um encontro, com uma falta, com um desejo, com uma inocente espera... Tenho que aprender meus encontros, e viver deles.
quarta-feira, 18 de março de 2009
sexta-feira, 13 de março de 2009
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
Casulo

Na primeira aula de filosofia lembro-me da professora dizer que éramos como casulos diante do mundo, um mundo desconhecido e mascarado, um mundo ‘dado’, pré-programado pra nos fazer não agir_ nada além do comum, do que encaixasse à massa_ e que a filosofia nos faria enxergar mais que o óbvio, nos faria desabrochar, e eu pensei naquele instante: nunca vou deixar de ser casulo.
Meu desabrochar é de um momento, num clarão fugaz de um sentimento, pra depois me devolver ao casulo, porque me pego sempre a repetir lembranças, a contar o tempo que passou, me aterrando em memórias...
Volto ao meu casulo com músicas que me remetem a mais de uma década atrás, e cheiros de coisas que nem sei mais o nome, ou nunca soube, volto ao casulo a relembrar, rezando baixinho pra ter mais uma vez as surpresas de meu pai adentrando a sala, volto ao casulo a recolher meus sonhos nas agendas empoeiradas; no casulo conservo uma esperança e a boa ignorância de quem sorri sem ter muito mais o que fazer. Volto ao casulo nas dores de menina, lendo, relendo cartas de amores sem histórias ou de histórias sem amores, volto ao casulo até na saudade das bonecas, das brincadeiras livres, das quedas que só doíam na carne. Meu casulo abriga uma timidez estúpida e uma renúncia velada.
No casulo há tanto silêncio quanto grita meu medo nos olhos apáticos, e é uma estrada sem fim onde eu corro, corro e corro, sem chegar a lugar nenhum...
Uso meu casulo pra me proteger sabendo que ele é meu maior perigo, uso o casulo pra chorar o que não tem jeito e pra fingir o que não é e nunca será.
Nunca mais numa aula de filosofia ouvi falar sobre o que eu deixaria de ser ou o que me tornaria, e às vezes penso que é porque me escondi no casulo há tempos e esqueceram-se de mim, até eu esqueci que procurei um refúgio, vivo ‘achando’, tateando, como se fosse pegar um bom caminho ou me resignando em ter ao menos um caminho pra seguir; uma resignação inquieta, admito, como se na verdade a “casca” fosse a qualquer momento romper_ uma hora adormeço, uma hora tenho pesadelos, mas acordar mesmo não sei se é possível.
É como se eu cavasse procurando um tesouro bem no fundo, mas de medo não deixasse de olhar a superfície, de saudade não me largasse do ar puro da tranqüilidade da terra firme lá de cima, porque quanto mais cavo menos ar tenho e é cada vez mais difícil sustentar minha vontade, sustentar meu ideal.
O que me tem essa terra firme, que de firme nada tem mas não me digam, é a esperança que tanto repito, porque memórias e lembranças só a ela alimentam, e não mais dor, agora é do ‘querer’ que vivo cada sentimento...
domingo, 1 de fevereiro de 2009
Cheio de amor e deserto

Lá fora a chuva desaba e aqui no meu rosto
Cinzas de agosto e na mesa o vinho derramado
Tanto orgulho que não meço
O remorso das palavras
Que não digo
Mesmo na luz não há quem possa
Se esconder no escuro
Duro caminho o vento a voz da tempestade
No filme ou na novela
É o disfarce que revela o bandido
Meu coração vive cheio de amor e deserto
Perto de ti dança a minha alma desarmada
Nada peço ao sol que brilha
Se o mar é uma armadilha
Nos teus olhos
Balada de Agosto [Fagner e Zeca Baleiro]
Assusto ao deparar com uma imagem no espelho: sou eu. Eu e meus pecados, eu e minha dor. Tentando me guardar do fim, o fim que é para tudo, até mesmo para aquilo a que nada se destina existe o fim, o fim é ao que tudo vai...
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Cinthia Freitas
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